A Estratégia Pluriverso

FUNDAMENTOS TEÓRICOS

“Deve-se notar que o conceito de universalidade era corrente quando a ciência entendia o cosmos como um todo dotado de um centro. Entretanto, a ciência subsequente destacou que o universo não possui um centro. Isso implicou na mudança do paradigma, culminando na concepção do cosmos como um pluriverso. Parece que a resistência do “universo” mostra uma falha que aponta para o reconhecimento da necessidade de um deslocamento do paradigma. (…) optamos por adotar esta mudança de paradigma e falar de pluriverso, ao invés de universo” (RAMOSE, 2011, p. 10)

A Estratégia Pluriverso foi construída como instrumento didático de aplicação do paradigma epistemológico da pluriversalidade, proposto por Mogobe Ramose, como consideração de que existem diversos universos culturais e que não existe um modo de conhecer a realidade que possa se atribuir como única alternativa válida de conhecimento. Rompe-se, dessa forma, com um modelo geopolítico do conhecimento, organizado em um centro dito evoluído e periferias; e se notam “sistemas policêntricos em que centro e periferias são contextuais, relativos, politicamente construídos” (NOGUERA, 2014, p. 33).

A Estratégia Pluriverso também é herdeira da abordagem afrocêntrica proposta por Molefi Asante (1987) como abordagem epistemológica situada a partir das cosmopercepções dos povos africanos e indígenas que propõe o diálogo e confronto com o pensamento hegemônico a partir das vivências e conhecimentos subalternos.

Nossas leituras e reflexões nos levaram a optar também por um caminho que levasse em conta a percepção interseccional da realidade, isto é, a percepção herdada do feminismo negro, de que a mulher negra, por ser a que mais sofre o conjunto de sistemas de opressões ocidentais, deve ser assumida como figura central do salto civilizatório. Por isso, sempre que possível, partimos da leitura e da reflexão de uma pensadora negra ou indígena. Não de modo exclusivo, mas como opção política específica do nosso grupo.

UMA ESTRATÉGIA EM CINCO ETAPAS

Através de cinco etapas, propomos um caminho didático aberto, que valorize diferentes linguagens e promova a interdisciplinariedade, a pesquisa e o trabalho como princípios educativos que ajudem a superar a fragmentação do conhecimento; e a visibilidade de pensadoras e pensadores africanos, afro-brasileiros e indígenas como caminho de superação do epistemicídio, isto é, do assassinato das formas de pensar dos povos antes colonizados.

Ao construir essa estratégia de ensino coletivamente nosso grupo de pesquisa acredita que todos os processos educativos (projetos, aulas, sequências didáticas, etc.) do ensino de Humanidades na Educação Profissional podem se basear nas seguintes etapas:

1. Sensibilização

As atividades devem partir da vida concreta e conduzir a ela. Nessa etapa, os alunos devem ser “sensibilizados” sobre os temas propostos, refletir sobre sua importância, sentir-se parte de um processo coletivo de construção do conhecimento (e não apenas ouvintes). Através do conceito de “sentidos de mundo”, descrito pela socióloga nigeriana Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí, a sensibilização pode envolver diferentes linguagens (música, poesia, comida, filme, perfumes, toques, etc.), além da organização concreta dos alunos em equipes e da apresentação explícita dos objetivos de aprendizagem propostos.

2. Pesquisa e diálogos

A segunda etapa do Estratégia Pluriverso consiste na pesquisa, leituras e diálogos em grupos a partir de questões orientadoras definidas pelo professor. Propomos assim um caminho de autonomia e cooperação dos estudantes e um novo perfil de professor (não tão novo) como orientador de processos pessoais de construção do conhecimento e não apenas transmissor de conteúdos. Importância fundamental nessa etapa é apresentar diferentes perspectivas para uma mesma temática, deixando que os alunos confrontem ideias com os autores e entre si, nesse sentido a leitura e as rodas de conversa são os elementos principais da etapa.

3. Produção

Após a pesquisa e as rodas de conversa os alunos são convidados a produzir algo concreto para ser apresentado. As provas tradicionais avaliam apenas a memória dos alunos, enquanto o modelo de construção coletiva de um produto (projeto) permite que o aluno cresça em outras dimensões e inteligências. A etapa da produção materializa o conhecimento em algo cotidiano, permite a conexão entre a vida real e o saber estudado e possibilita ao aluno viver experiência de trabalho em grupo como princípio educativo.

4. Avaliação

Na etapa da avaliação os alunos são primeiramente convidados a se auto-avaliarem, percebendo o que aprendeu até o momento no processo vivenciado (seja no sentido intelectual, quanto de relações humanas, dedicação pessoal, dons e habilidades, etc.). Em um segundo momento, são convidados a avaliar os colegas do próprio grupo, desenvolvendo desse modo a comunicação assertiva, não violenta e construtiva, aprendendo a dar feedback aos companheiros de trabalho e a desenvolver relações comunitárias sádias. Por fim, avalia-se também o produto concreto realizado pelo grupo.

5. Celebração

O trabalho humano também se realiza na celebração, na amostra do trabalho realizado aos demais. Acreditamos na reflexão marxiana que vê no trabalho o fundamento ontológico do ser humano, isto é, cremos que o ser humano se faz pessoa no trabalho. Mas o trabalho humanizador se realiza em comunidade e somente a relação com o outro permite a realização do princípio humanizante do trabalho (Ubuntu). Parte disso é a festa, a alegria pelo trabalho concluído, o orgulho pelo bem realizado. Com essa última etapa queremos ajudar os alunos a viver essa dimensão da vida e aprender a celebrar com os demais as pequenas e grandes conquistas.

Foto de Capa: Saulo de Sousa

O trabalho Site Pluriverso: Estratégia de Ensino de Augusto Rodrigues de Sousa e Lediane Fani Felzke (org.) está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição-NãoComercial 4.0 Internacional.

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